Publicado em: 03/09/2019 às 13h31

A importância da limpeza do parafuso do pilar antes da aplicação do torque

Um breve relato demonstra a diferença biomecânica gerada na ponta ativa da chave protética e na cabeça de um parafuso de pilar quando o mesmo torque é usado com uma chave protética devidamente encaixada ou não.

A maioria das reabilitações orais com implantes osseointegrados está relacionada com o uso de diversos parafusos, sejam eles para reter o pilar no implante, a prótese no pilar1 ou até mesmo a prótese diretamente sobre o implante2. Deste modo, um procedimento comumente relatado nos casos clínicos é a utilização de alguma barreira física para proteger a cabeça do parafuso e evitar que materiais ou resíduos dificultem o encaixe entre a chave protética e o parafuso.

A preocupação dos dentistas é não comprometer a reversibilidade do parafuso usado sobre o implante, pois, por diversos motivos futuros, a prótese poderá necessitar ser removida3 e um procedimento relativamente simples passa a ter o tempo clínico estendido, caso o encaixe do parafuso protético ou do parafuso do pilar esteja obstruído4. Porém, os resíduos dentro da cabeça do parafuso podem não ser totalmente removidos porque situações como a de dentes posteriores com implantes subcrestais e conexões internas, por exemplo, dificultam o acesso e a verificação visual. Além disso, detritos laboratoriais durante a confecção de próteses podem estar presentes no interior dos parafusos usados sobre implantes, assim como resíduos de alimentação nos casos em que o paciente perdeu o selamento coronário e o parafuso ficou exposto em meio oral5. Resumidamente, em várias etapas de confecção da prótese sobre implante, algum contaminante pode estar presente impedindo o perfeito assentamento da chave protética. A Figura 1 exemplifica as duas situações em um único caso.
 

Figura 1 – Exemplo de parafusos protéticos em uma prótese total sobre implantes realizada pelos autores. Nem sempre o encaixe da cabeça do parafuso está totalmente limpo, como no círculo vermelho.


O objetivo deste breve relato é demonstrar a diferença biomecânica gerada na ponta ativa da chave protética e na cabeça de um parafuso de pilar quando o mesmo torque é usado com uma chave protética devidamente encaixada ou não.

O método dos elementos finitos foi utilizado para a realização da análise estática estrutural mecânica das duas situações propostas. Através da base de dados do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos (Unesp), um modelo tridimensional de implante6 foi selecionado. Sobre ele foi usado um pilar de preparo (5,5 mm) representando o que seria um preparo individualizado para uma coroa total cimentada. Em seguida, uma chave protética genérica (longa, hexagonal de 1,2 mm) foi construída e colocada em duas diferentes posições no interior do parafuso do pilar. Esse método computacional foi selecionado por conseguir demonstrar, através de mapas colorimétricos, a concentração de tensões em estruturas mecânicas7. A carga aplicada nesse estudo foi o análogo rotacional de força, que chamamos de torque – nesse caso, 30 Ncm para ambas as situações. A Figura 2 resume as duas situações analisadas.

Figura 2 – Modelo tridimensional de uma chave protética manual inserida em duas posições distintas durante aplicação do torque em sentido horário. Na primeira situação, o encaixe hexagonal do parafuso está limpo para permitir um encaixe preciso. Já na segunda, um resíduo hipotético foi simulado para impedir que a chave esteja totalmente encaixada.


Nesta avaliação, o implante foi considerado idealmente osseointegrado (fixo) e o contato entre a chave e o parafuso protético foi mantido durante todo o ensaio. Se usarmos como base a teoria da energia de distorção máxima, podemos observar a tensão resultante para possíveis danos em estruturas dúcteis, no caso titânio para o parafuso e aço para a chave protética. Para entender os resultados dessa análise, é necessário observar a escala de cores (ao lado da imagem) que demonstra o valor de tensão correspondente a cada uma das cores. Deste modo, para esse resultado, quanto mais próximo do vermelho, maior é a tensão concentrada na estrutura. Quanto maior a tensão concentrada, maior o potencial de algum dano ser observado clinicamente (Figuras 3 e 4).

Figura 3 – Resultados de tensão (von Mises) para o parafuso do pilar nas duas situações simuladas. É possível notar maior concentração de tensão no parafuso quando a chave está mal encaixada (resultados da segunda linha).

 

Figura 4 – Resultados de tensão (von Mises) para a ponta ativa da chave protética. A tensão na parede lateral dos hexágonos da chave também aumenta quando essa ferramenta está mal acoplada no parafuso (resultado da segunda linha).


É possível observar que, para o mesmo torque aplicado, uma chave protética mal encaixada irá exercer mais tensão na cabeça do parafuso. Isso quer dizer que, ao aplicar o torque recomendado pelo fabricante sem que a chave esteja devidamente encaixada, existe maior possibilidade de espanar o parafuso. Isso também aumenta a tensão gerada na ponta ativa da chave protética, diminuindo a longevidade dessa ferramenta e possivelmente tornando-a mais arredondada com o uso contínuo dessa prática. Sem dúvidas, a troca do parafuso do sistema de prótese sobre implante ou a aquisição de uma nova chave protética podem ser facilmente realizadas pelo cirurgião-dentista. O problema é quando a deformação plástica do metal não é percebida imediatamente, podendo trazer futuros desconfortos para o paciente e para o clínico.

Por fim, seja para remover ou apertar um parafuso de prótese sobre implante, o encaixe da chave protética deve estar sempre limpo, permitindo que a área justaposta entre chave e parafuso seja a maior possível. Essa recomendação visa transferir o torque aplicado de maneira mais segura, para a longevidade da prótese e dos instrumentais.

 

Referências
1. Tribst JPM, de Melo RM, Borges ALS, de Assunção e Souza RO, Bottino MA. Mechanical behavior of different micro conical abutments in fixed prosthesis. Int J Oral Maxillofac Implants 2018;33(6):1199-205.
2. Jaime AP, de Vasconcellos DK, Mesquita AM, Kimpara ET, Bottino MA. Effect of cast rectifiers on the marginal fit of UCLA abutments. J Appl Oral Sci 2007;15(3):169-74.
3. Michalakis KX, Hirayama H, Garefi s PD. Cement-retained versus screw-retained implant restorations: a critical review. Int J Oral Maxillofac Implants 2003;18(5):719-28.
4. dos Santos MMTC, Relvas A, Veiga MCMV. Alternative technique for the removal of cover screws, healing screws and one-pice prosthetic abutments – technical description. ImplantNewsPerio 2018;3(5):887-92.
5. Park SD, Lee Y, Kim YL, Yu SH, Bae JM, Cho HW. Microleakage of different sealing materials in access holes of internal connection implant systems. J Prosthet Dent 2012;108(3):173-80.
6. Datte CE, Tribst JP, Dal Piva AO, Nishioka RS, Bottino MA, Evangelhista AM et al. Influence of different restorative materials on the stress distribution in dental implants. J Clin Exp Dent 2018;10(5):e439-44.
​7. Tribst JPM, Dal Piva AMO, Özcan M, Borges ALS, Bottino MA. Influence of ceramic materials on biomechanical behavior of implant supported fixed prosthesis with hybrid abutment. Eur J Prosthodont Restor Dent 2019;27(2):76-82.

 

João Paulo Mendes Tribst
Mestre e doutorando pelo programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), São José dos Campos/SP.

Amanda Maria de Oliveira Dal Piva
Mestra e doutoranda – Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), São José dos Campos/SP.

Marco Antonio Bottino
Professor do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), São José dos Campos/SP.