Publicado em: 03/09/2019 às 13h35

O digital muito além do CAD/CAM

Restringir os avanços tecnológicos da Odontologia ao sistema é pouco diante de todas as possibilidades oferecidas pelo digital. Você está pronto para participar dessa revolução?

As etapas CAD e CAM são partes importantes do mundo digital, mas não o definem como um todo. (Imagens: Shutterstock)


É difícil imaginar o dia a dia sem os aplicativos que orientam no trânsito, que permitem a comunicação global em tempo real e que oferecem informações sobre os mais variados temas. O mesmo acontece na Odontologia: os exames tridimensionais associados ao uso de softwares para planejamentos virtuais, por exemplo, têm aprimorado de maneira consistente o diagnóstico, o plano de tratamento, a comunicação com o paciente e a equipe de trabalho, além de melhorar os índices de previsibilidade e sucesso clínico. “Não há dúvidas de que estamos em meio a um novo ciclo da profissão. Cabe salientar que não se trata de Odontologia convencional versus Odontologia Digital, mas sim da somatória de conhecimentos técnicos e científicos adquiridos durante décadas, além da chegada de tecnologias que podem levar a nossa profissão para um novo patamar de qualidade e eficiência”, afirma Fabio Bezerra, mestre em Periodontia e doutor em Biotecnologia.

As etapas CAD (computer aided design) e CAM (computer aided manufacturing) são partes importantes do mundo digital, mas não o definem como um todo. Pode-se adicionar ainda as diferentes metodologias de aquisição de imagem, como as tomografias computadorizadas, escaneamentos intra e extraorais, fotografias digitais, além de processos mais avançados como a navegação cirúrgica ou o uso da inteligência artificial (IA) para planejamento ou execuções de tratamentos odontológicos. “Estamos vivendo a primeira etapa de desenvolvimento, definida como ‘fluxo digital operador dependente’, ou seja, apesar da grande evolução das técnicas e tecnologias, ainda há necessidade do operador em praticamente todas as etapas dos processos digitais, seja no planejamento virtual, elaboração do guia cirúrgico, desenho digital do sorriso ou impressão 3D de um modelo”, explica Bezerra. Em um futuro muito próximo, haverá menor dependência do operador, uma vez que os softwares poderão usar bancos de dados complexos para definir o posicionamento ideal do implante, respeitando estruturas anatômicas nobres; sugerir traçados cefalométricos a partir de um único ponto marcado na análise facial; e recomendar o desenho do sorriso ideal guiado pela face do paciente através de bibliotecas virtuais disponíveis em nuvens. Muitos destes exemplos já estão sendo testados ou utilizados em baixa escala nas principais universidades do mundo ou por beta testers de empresas privadas de alta tecnologia e inovação.

Sergio Dias, especialista em Prótese Dentária e doutor em Reabilitação Oral, acrescenta que o digital está inserido também em outro contexto nas clínicas. Pode ser empregado na prospecção, na comunicação e no acompanhamento do cliente. “Na consulta inicial, os processos diagnósticos, como fotografias e tomografias, já utilizam o digital, assim como os exames complementares, os planejamentos e a execução dos trabalhos em CAD/CAM. Por fim, pode-se fazer a gestão do negócio de forma digital, trabalhando dados. Quanto mais dados acumulamos, mais conhecemos o nosso negócio e mais rápidas e assertivas são as decisões gerenciais, administrativas e estratégicas”, diz. Portanto, o digital visto somente como CAD/CAM, ou seja, como uma metodologia de execução de próteses, é pouco diante de suas possibilidades na Odontologia. A tecnologia CAD/CAM é apenas uma forma que o mercado odontológico encontrou para difundir a inovação dos sistemas digitais.

Para o conceito digital ser plenamente incorporado à clínica, é importante mudar a visão das pessoas envolvidas, incluindo o dentista e toda a equipe. “No meu hospital odontológico, por exemplo, levamos isso tão a sério que hoje aplicamos na nossa rotina clínica muitas metodologias de gestão ágil originadas do desenvolvimento de softwares, aplicativos e sistemas digitais, ou seja, conduzimos nosso negócio da mesma forma como programadores desenvolvem suas tecnologias”, esclarece Dias.


 

Inserção no mercado

Adotar os sistemas digitais significa abrir as portas para uma série de vantagens, tanto para o profissional quanto para o paciente. Os benefícios abrangem desde maior precisão, previsibilidade de resultados e economia de tempo até a reprodutibilidade de resultados. Para Bezerra, cada profissional deve encontrar o seu motivo pessoal para entrar neste novo mundo. Esta não deve ser uma decisão motivada por pressões comerciais ou simplesmente para fazer parte deste novo momento. Para se sentir pronto, o dentista deve ter muito clara a resposta à seguinte pergunta: este produto, técnica ou tecnologia realmente beneficiará o meu paciente e a minha profissão? “Se a resposta não for totalmente clara, é preciso analisar melhor o investimento. A sugestão é sempre adquirir primeiro conhecimento sobre o mundo digital, seus limites e benefícios para depois investir em equipamentos”, recomenda.

Por outro lado, o tempo se tornou uma valiosa moeda e, a partir da digitalização de processos, otimiza-se o tempo. A Odontologia Digital é capaz de acelerar todos os processos para o dentista e para o paciente. “Conforme cresce o domínio tecnológico do usuário, os trabalhos vão se tornando cada vez mais precisos e previsíveis”, resume Dias.

Apesar de estarmos presenciando uma evolução contínua nos fluxos de trabalhos digitais, alguns aspectos ainda precisam ser melhorados. A geração atual está vivenciando a quebra de diversos paradigmas e precisa se adaptar de maneira dinâmica aos novos tempos. Embora o digital seja o futuro da Odontologia, ainda não está acessível a todos, sendo necessários altos investimentos em equipamentos, softwares e conhecimento para acompanhar a evolução. “Se pensarmos que o digital envolve a indústria de produtos e equipamentos odontológicos, clínicas de radiologia, planning centers, profissionais e laboratórios de prótese dentária, toda a cadeia produtiva está se reinventando – sobretudo através da reciclagem dos profi ssionais e modernização de equipamentos e processos. Tudo isso para superar os obstáculos criados pela ausência de mão de obra qualificada, consumíveis ou equipamentos não disponíveis no País”, destaca.

De maneira mais profunda, o próprio ensino de Odontologia nas universidades precisará se digitalizar para que as novas gerações tenham acesso às novas possibilidades ainda na graduação. Para aproveitar todas as vantagens da tecnologia, é preciso investir em educação. “Percebemos a necessidade do profissional ser inserido no conceito digital, mas as universidades não estão capacitadas para oferecer essa educação, tanto em termos de estrutura como de recursos humanos”, pondera Dias.
 

Os dois lados

Além do CAD/CAM, os principais recursos digitais surgiram no segmento de diagnóstico e planejamento por imagem. Porém, também há um fator importante em relação aos processos de gestão do negócio e de marketing, que mudaram muito a forma de conduzir o negócio, prospectar clientes e construir uma marca forte no mercado odontológico.

Alguns recursos digitais, como softwares de gestão clínica, fotografias digitais, exames radiográficos tridimensionais e escaneamento intraoral, tornaram possível a criação de um “paciente digital” ou “clone digital”, conforme alguns autores têm denominado. Com estes recursos, é possível acessar on-line o prontuário do paciente, realizar planejamentos a partir de smartphone e comunicar-se com a equipe, com o paciente ou com o laboratório de prótese dentária em tempo real. “Esses processos eliminam o limite físico de comunicação, já que a moldagem digital é realizada por scanner e pode ser enviada para o laboratório da cidade do dentista ou para um outro continente, isso não faz a menor diferença. Expandimos os horizontes e as possibilidades, tornando viável a comunicação assíncrona, em que não há necessidade de várias pessoas estarem no mesmo local em um mesmo momento para realizar o planejamento interdisciplinar”, explica Bezerra.

Vale lembrar sobre a possibilidade de simular tratamentos antes de mostrá-los ao paciente e alinhar expectativas terapêuticas, para que todos estejam integrados para o sucesso do caso. Isso também evita erros, insatisfações com os resultados e necessidades de retratamentos.

Segundo Bezerra, existem basicamente duas maneiras para incorporar o fluxo digital na rotina clínica: através do investimento em equipamentos e softwares ou terceirizando este serviço para clínicas de radiologias ou planning centers que estejam preparados para este novo momento da Odontologia. O Brasil é um dos líderes em qualidade de centros de diagnóstico, sendo que muitos já disponibilizam tomografias, fotografias, escaneamento e softwares de planejamento reabilitador. “No cenário atual, é totalmente viável a incorporação do fluxo digital na rotina clínica sem a necessidade de investimento em equipamentos. Não há dúvidas de que o digital é uma realidade que estará cada vez mais presente nas clínicas. Mas, estas novas ferramentas devem ser associadas à prática de uma Odontologia de excelência, totalmente ética e focada na saúde dos pacientes”, frisa.

Para Dias, por mais que o conceito de fluxo digital seja debatido intensamente, ainda não foi plenamente conquistado na Odontologia. “Existem várias lacunas no tratamento que o digital ainda não conseguiu atender, no entanto, caminhamos para solucionar esses problemas. Isso porque estar inserido no conceito digital gera previsibilidade, precisão e otimização do tempo. A soma destes fatores resulta em uma grande mudança econômica no negócio”, finaliza.