Publicado em: 03/09/2019 às 13h46

Infiltração de vidro da zircônia monolítica como caracterização extrínseca duradoura

Com o aumento do uso da zircônia monolítica, as fraturas tendem a se tornar menos frequentes, com a conservação das características estéticas.

Ao considerar a longevidade das restaurações cerâmicas, a preocupação parece se limitar à sua integridade e a do próprio dente. Com o aumento do uso da zircônia monolítica, as fraturas tendem a se tornar menos frequentes e, então, será mais importante considerar a conservação das características estéticas, isto é, a aparência da camada de caracterização após anos sob ação de cargas mastigatórias.

A experiência mostra que os pigmentos externos de caracterização das cerâmicas odontológicas e que conferem aparência natural são perdidos com passar do tempo, tornando as restaurações mais claras que os dentes vizinhos e com aspecto mais rugoso. Isso acontece ao utilizar glaze e caracterização extrínseca, ambos constituídos por elementos solúveis, como metais alcalinos e óxidos pigmentantes1. Dessa forma, recomenda-se evitar o uso desses componentes e substituí-los por restaurações que, como um todo, mimetizem a cor desejada.

Mas, como conciliar essa recomendação para materiais como as zircônias que, mesmo quando tingidas, não reproduzem a aparência e, sobretudo, a impressão de profundidade do dente natural? A infiltração com vidro pode ser um caminho, pois é feita antes da sinterização e densificação máxima da zircônia, ao contrário do glaze, que é aplicado sobre o material denso e permanece superficial, às vezes infiltrando em poros e irregularidades (Figura 1). Por outro lado, a infiltração é feita antes da sinterização e densificação máxima da zircônia. Dessa forma, a zircônia ainda porosa pode ser preenchida pelo vidro que confere, além da lisura superficial, possibilidades de cores, maior resistência mecânica que a zircônia tradicional e proteção contra o envelhecimento (degradação)2.

Figura 1 – Microscopia eletrônica de varredura em alta magnificação de poro na superfície da zircônia, previamente vitrificada com glaze. O glaze fundido entrou no poro e em certas irregularidades, mas permaneceu apenas na superfície dos grãos. Imagem cedida pelo Dr. Tiago M. Bastos Campos, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).


O vidro se infiltra entre as fronteiras dos grãos de zircônia por ação de capilaridade. Assim, cria-se uma camada externa de vidro, outra intermediária de vidro e zircônia e, então, a camada mais interna de zircônia 3-YTZP. Essas camadas gradativamente diferentes em composição são responsáveis pelas excelentes propriedades do material infiltrado. Estudos recentes demostraram ótimo desempenho da zircônia infiltrada por vidro após ensaios de desgaste (1.250.000 ciclos de fadiga, 200 N de carga, esteatita como antagonista), resultando em facetas de desgaste bastante superficiais e pequena exposição da camada de vidro e zircônia3-4. Os resultados são ainda melhores quando a zircônia é polida antes da infiltração, pois reduz o desgaste do material antagonista, ao contrário do glaze que é mais abrasivo3.

Portanto, pondera-se que é improvável que a camada de vidro e zircônia seja totalmente perdida em uma condição clínica. A recomendação seria então polir e, em seguida, infiltrar o material para obter a preservação da camada de vidro que, dentre outras funções, também serviria como caracterização mais duradoura para zircônia monolítica.

 

Referências
1. Mclean JW. Current status and future of ceramics in dentistry. Conference on Recent Developments of Dental Ceramics 2009. p.7.
2. Ren L, Janal MN, Zhang Y. Sliding contact fatigue of graded zirconia with external esthetic glass. J Dent Res 2011;90(9):1116-21.
3. Kaizer MR, Moraes RR, Cava SS, Zhang Y. The progressive wear and abrasiveness of novel graded glass/zirconia materials relative to their dental ceramic counterparts. Dent Mater 2019;35(5):763-71.
4. Kaizer MR, Bano S, Borba M, Garg V, dos Santos MBF, Zhang Y. Wear behavior of graded glass/zirconia crowns and their antagonists. J Dent Res 2019;98(4):437-42.

 

Renata Marques de Melo

Cirurgiã-dentista, doutora em Prótese e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia de São José dos Campos, Unesp.