Publicado em: 03/09/2019 às 14h10

Telemetria dental: como a tecnologia nos ajudará a ver mais e melhor?

Guilherme Saavedra e José Lincoln de Queirós Jr. destacam a importância do estudo da coleta e análise de dados na Odontologia.

A tecnologia é uma realidade na Odontologia atual. A cada dia, novos equipamentos e softwares chegam ao mercado com a promessa de facilitar a vida de clínicos e técnicos em prótese dentária, e uma pergunta é comum nas conversas sobre este tema: como a tecnologia transformará nossa área de atuação?

Vou contar uma história. Em maio de 2019 fez 25 anos do trágico acidente que levou um dos maiores – senão o maior – ídolo do esporte brasileiro: Ayrton Senna. Quando ele fazia parte da equipe Lotus-Honda, a disciplina e o método de trabalho dos japoneses o surpreendeu, e a recíproca foi verdadeira dado o talento e a genialidade do piloto brasileiro. A troca de informações entre eles era constante, assim como a busca pela evolução do carro. Em uma determinada fase do desenvolvimento do motor, Senna pediu ao seu engenheiro que mudasse a marcação do contagiros de 200 para 50 rotações por minuto, algo que só um piloto de extrema sensibilidade seria capaz de mensurar. Em uma das passagens mais icônicas da sua biografia, após algumas voltas de testes, Senna retornou o carro aos boxes e relatou que seria melhor parar para o motor não quebrar. Em uma primeira avaliação, os mecânicos não encontraram alteração, porém alguns dias depois, ao desmontar o motor, os técnicos da equipe encontraram um problema mínimo, que Senna havia percebido por uma ínfima alteração no som do motor, mas que o danificaria.

O que estes fatos têm em comum com a Odontologia? Tenho certeza de que eu e você temos alguns casos clínicos que foram resolvidos no “talento”, por alguma sacada inteligente da nossa parte ou por uma jogada de mestre de nossos técnicos em prótese dentária. Porém, talento e genialidade são cíclicos e imprevisíveis. Da mesma maneira que Senna pediu mais números e referenciais para melhorar sua performance, vocês perceberam que a quantidade de referenciais e medidas que usamos em diagnóstico e planejamento aumentam a cada dia? Desde o primeiro checklist de reabilitação que aprendi, passando pelas propostas de grandes mestres, como Dario Adolfi, Pascal Magne e Mauro Fradeani, é perceptível que precisamos ver mais e melhor para atingirmos o nível de exigência pretendido por nós e nossos pacientes.

No automobilismo e na engenharia, o estudo da coleta e análise de dados possui um termo: telemetria. O que mais fazemos na Odontologia hoje? A resposta é: medir. Fazer isso de forma analógica é comprovadamente falho, na proporção direta da quantidade de dados com os quais trabalhamos. Por este motivo, a cada dia, a tecnologia fará mais parte da nossa conduta clínica e laboratorial. Dados como a intensidade de contatos proximais e oclusais, bibliotecas de dentes naturais, leitura e análise tridimensional da linha de terminação cervical e de cimentação, análise dente a dente do comportamento em movimentos de lateralidade e protrusão, e vários outros são passíveis de aferição e análise, resultando em restaurações mais rápidas e precisas.
 

Figuras 1 e 2 – Combinação dos escaneamentos intraorais e tomografia. A associação de diferentes exames tridimensionais abre novas possibilidades no diagnóstico e tratamento dos pacientes.

 

Figura 3 – O articulador semiajustável virtual pode ser aplicado na análise dos modelos e no ajuste de trabalhos definitivos. O registro digitalizado do arco facial pode ser transferido e, associado ao registro oclusal, pode auxiliar o profissional na análise dos planos e possíveis assimetrias.

 

Figuras 4 a 7 – Sequência de design de restaurações definitivas planejadas digitalmente com o auxílio do ensaio estético restaurador. A Odontologia Digital permite menos ajustes e maior precisão dimensional dos elementos protéticos.

 


Isso significa uma mudança total e que precisaremos desaprender tudo o que é analógico para entrar no digital? É importante e responsável compreendermos que a tecnologia não é o objetivo final, mas sim o meio de alcançarmos a meta desejada por todos: tratamentos bem-sucedidos. As tecnologias de maior impacto na humanidade possuem uma característica em comum: são invisíveis, aperfeiçoando processos na nossa vida de forma fluida e amigável. Os referenciais consagrados na literatura científica, como referenciais faciais, técnicas de determinação da dimensão vertical, desprogramação para registros oclusais e tantos outros, serão combinados com ferramentas digitais, como articuladores virtuais, escaneamentos de face, registros de movimentos dinâmicos da mandíbula e novas possibilidades que surgirão. O embasamento que já temos pode ser potencializado pela tecnologia, tornando melhor a chave-mestra do sucesso dos tratamentos restauradores: a comunicação clínicolaboratorial.

A expressão telemetria dental talvez defina a fase em que nos encontramos na nossa profissão. A combinação dos referenciais clássicos com as ferramentas digitais ainda não alcançou seu máximo potencial, e o desenvolvimento de novos fluxos depende não somente das empresas, mas também de cada um dos usuários da Odontologia Digital. Estamos no meio da quarta revolução industrial, onde os meios para criar novos produtos e serviços se encontram ao alcance de todos. Se pararmos para rever os fluxos digitais mais inovadores e impactantes na nossa profissão, vocês perceberão que foram desenvolvidos por dentistas que pensaram fora da caixa. O que a tecnologia pode fazer por você? Pense, desenvolva e contribua você também para a evolução da nossa profissão.

 

Referências
1. Rodrigues EC. Ayrton: o herói revelado (1a ed.). Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. p.183.
2. Adolfi D. A estética natural (1a ed.). São Paulo: Editora Santos, 2002.
3. Magne P, Belser U. Restaurações de porcelana na dentição anterior: uma abordagem biomimética (1a ed.). São Paulo: Quintessence Editora, 2002.
4. Fradeani M. Reabilitação estética em prótese fixa: análise estética (1a ed.). São Paulo: Quintessence Editora, 2006.
5. Andretti F. Odontologia Digital: desafiando os limites (1a ed.). São Paulo: Editora Napoleão, 2019.

 

Coordenação:

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT Unesp. Professor visitante da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, em Portugal.

 

Autor convidado:

José Lincoln de Queirós Jr.

Especialista em Dentística Restauradora – Hospital das Forças Armadas (Brasília/DF); Especialista em Prótese Dentária – Universidade de Brasília; Coordenador do grupo Telemetria Dental; Fundador da comunidade digital Masterminds Digital Dentistry.